Nuno Júdice – Outra Imagem

Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terra
Por cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos.
Os mortos vêem-nos; de onde eles estão, eles chamam pelos nomes
Familiares, num murmúrio, e o vento dispensa-lhes os sopros
– música de ciprestes. Por isso há quem ande entre as campas
ao fim da tarde, com os ouvidos tapados; quem reze,
entre lábios, datas estéreis como as antigas pedras;
quem persiga a própria sombra, temendo que ela desapareça
sob a erva fresca. Memórias vagas e finais, atormentando-me
num secreto espelho – no canto de mim, absorto
e pálido, quem me diz o nome em silêncio, sem olhos,
sem lábios, sem os cabelos que outrora toquei?

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Joan Margarit – A moça do semáforo

Tens a mesma idade que eu tinha
quando comecei a sonhar em encontrar-te.
Então ignorava, assim como tu o ignoras,
que o amor se transforma na arma carregada
de solidão e de melancolia
que agora está apontada para ti nos meus olhos.
Tu és a moça que busquei
durante tanto tempo quando ainda não existias.
E eu o homem a quem quererás
que um dia oriente teus passos.
Mas estarei tão longe de ti então
como estás agora de mim neste semáforo.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – La muchacha del semáforo

Tienes la misma edad que yo tenía
cuando empecé a soñar con encontrarte.
Entonces ignoraba, igual que tú lo ignoras,
que el amor se transforma en el arma cargada
de soledad y de melancolía
que ahora está apuntándote en mis ojos.
Tú eres la muchacha que busqué
durante tanto tiempo cuando aún no existías.
Y yo el hombre hacia quien querrás
alguna vez encaminar tus pasos.
Pero estaré tan lejos de ti entonces
como lo estás ahora de mí en este semáforo.

Manuel António Pina – Os Mortos

Eu sei, é preciso esquecer,
desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los,
os nossos mortos anseiam por morrer
e só a nossa dor pode matá-los.

Tanta memória! O frenesim
escuro das suas palavras comendo-me a boca,
a minha voz numerosa e rouca
de todos eles desprendendo-se de mim.

Porém como esquecer? Com que palavras e sem que palavras?
Tudo isto (eu sei) é antigo e repetido; fez-se tarde
no que pode ser dito. Onde estavas
quando chamei por ti, literalidade?

E todavia em certos dias materiais
quase posso tocar os meus sentidos,
tão perto estou, e morrer nos meus sentidos,
os meus sentidos sentindo-me com mãos primeiras, terminais.

Alfonsina Storni – Leva-me

Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar;
Ata-me a tua alma; a alva a brilhar.

Toma-me pelas mãos como em um branco casulo
E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho.

Leva-me! É uma noite muito negra e sombria!…
A morte caça pelo mundo tal qual harpia.

Faz-me esquecer o muito que me pesa nos ombros
Esta carga pesada de pesados escombros.

Liberta-me! Em tuas mãos quero pesar menos
Do que pesam – luzes – os pensamentos serenos.

Mais leve do que o ar, do que o ar muito mais leve
Como bolha de espuma a voar na manhã breve.

Espuma, brisa, aroma, casulo, flor, fragrância:
Leva-me para sempre sem rumo nem distância.

Trad.: Nelson Santander

Alfonsina Storni – Llévame

Quiero olvidar que vivo: llévame a donde sea;
Enrédame en tu alma; la aurora centellea.

Tómame entre tus manos como blanco capullo
Y muéstrame a los dioses con gloria y con orgullo.

¡Llévame! Está la noche muy negra y muy sombría!…
La muerte por los mundos anda de cacería.

Hazme olvidar lo mucho que me pesa en los hombros
Esta carga pesada de pesados escombros.

¡Libértame! En tus manos yo quiero pesar menos
De lo que pesan — luces — los pensamientos buenos.

Liviana más que el aire, más que el aire liviana;
Como globo de espuma que asciende en la mañana.

Espuma, brisa, aroma, capullo, flor, fragancia:
Llévame para siempre sin rumbo ni distancia.

Mário Cesariny – “de profundis amamus”

Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes

O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

Rui Pires Cabral – Nunca se Sabe

Papéis velhos com poemas: são o joio
das gavetas. Relê-los causa aversão
e uma espécie de tristeza arrependida –
são tão nossos como as más recordações
e ainda vemos a circunstância precisa,
a causa, a ferida, por detrás de cada um.

Mas na altura havia esperança: é isso
que representam. Não pelas coisas que
dizem – é só descrença e fastio – mas
pela simples razão de termos querido
guardá-los. Com um pouco mais de alento,
de inspiração e trabalho, ainda se endireita
isto. Ou seja, os versos. E até a vida.

Amalia Bautista – Ver o Sol

Era tudo mentira e me convenço
no momento mais inoportuno.
O amor não era amor. Eram os beijos
uma maneira de saciar a sede.
As carícias, o modo de nos guiarmos
no meio da noite. Ouço agora
a voz da tristeza: se pretendes
ver o sol, deves à contraluz
contemplar um ovo semicozido.

Trad.: Nelson Santander

Ver el sol

Era todo mentira y me convenzo
en el momento más inoportuno.
El amor no era amor. Eran los besos
una manera de apagar la sed.
Las caricias, el modo de orientarnos
en medio de la noche. Oigo ahora
la voz de la tristeza: si pretendes
ver el sol, deberías al trasluz
mirar un huevo pasado por agua.