Eugénio de Andrade – Quando em silêncio passas entre as folhas…

Quando em silêncio passas entre as folhas,
uma ave renasce da sua morte
e agita as asas de repente;
tremem maduras todas as espigas
como se o próprio dia as inclinasse,
e gravemente, comedidas,
param as fontes a beber-te a face.

Mario Quintana – Poema da gare de Astapovo

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua…
Sentou-se …e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu…
Ele fugiu de casa…
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

Aqui: http://www.vermelho.org.br/noticia/320298-1

Joan Margarit – Astapovo

De madrugada, quando só se ouvem
relógios no escuro,
o imagino, aos seus oitenta anos,
fugindo em um trem russo que iria ao sul
de lugar nenhum, aonde os velhos querem ir.
Tolstoi temia aquele inverno
que o seguiu durante sua velhice
até o leito de morte ferroviário,
na noite em que o teclado do telégrafo
transmitiu o mais breve e cruel
de todos os seus relatos.
Quis correr mais rápido que o frio,
mas seu trem foi coberto para sempre
pelos flocos de neve que caíam
na gare de Astapovo.
Eu comecei a fuga muito antes,
porque aprendi com Tolstoi
que há de se entrar na última estação
em grande velocidade. Assim a morte,
sem tempo de avisar-nos com sinais,
agitando uma lanterna na linha,
com um golpe seco,
muda a direção dos trilhos.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Astápovo

De madrugada, cuando sólo se oyen
relojes en lo oscuro,
me lo imagino, a sus ochenta años,
huyendo en un tren ruso que iba al sur
de ningún sitio, adonde los viejos quieren ir.
Tolstoi temía aquel invierno
que le siguió durante su vejez
hasta el lecho de muerte ferroviario,
la noche en que el teclado del telégrafo
transmitió el más breve y cruel
de todos sus relatos.
Quiso correr más rápido que el frío,
pero su tren quedó cubierto para siempre
por los copos de nieve que caían
en la estación de Astápovo.
Yo he empezado la fuga mucho antes,
porque aprendí de Tolstoi
que hay que entrar en la última estación
a gran velocidad. Así la muerte,
sin tiempo de avisarnos con señales
agitando un farol desde las vías,
de un golpe seco, cambia las agujas.

Manuel António Pina – Quinquagésimo ano

São muitos dias
(e alguns nem tantos como isso…)
e começa a fazer-se tarde de um modo
menos literário do que soía,
(um modo literal e inerte
que, no entanto, não posso dizer-te
senão literariamente).
Mas não há pressa, nem se vê ninguém a correr;
a única coisa que corre é o tempo,
do lado de fora, porque dentro
a própria morte é uma maneira de dizer.
Caem co’a calma as palavras
que sustentaram o mundo,
e nem por isso o mundo parece
menos terreno ou impermanece.
Restam, é certo, alguns livros,
algumas memórias, algum sentido,
mas tudo se passou noutro sítio
com outras pessoas e o que foi dito
chega aqui apenas como um vago ruído
de vozes alheias, cheias de som e de fúria:
literatura, tornou-se tudo literatura!
E a vida? (Falo de uma vida
muda de palavras e de dias, uma vida nada mais que vida;
haverá uma vida assim para viver,
uma vida sem a si mesma se saber?)
Lembras-te dos nossos sonhos? Então
precisávamos (lembras-te?) de uma grande razão.
Agora uma pequena razão chegaria,
um ponto fixo, uma esperança, uma medida.

             18/5/00

Emily Dickinson – de “Não sou ninguém”

27
Poetas mártires — não clamam —
A Dor em sílabas transmudam —
Falam por eles seus poemas —
Quando já estejam mudos.

Pintores mártires — Não falam —
Com sua Obra eles almejam
Que quando já não sejam mais —
Alguns busquem na Arte — a Paz —

Trad.: Augusto de Campos

The Martyr Poets — did not tell —
But wrought their Pang in syllable —
That when their mortal name be numb —
Their mortal fate — encourage Some —

The Martyr Painters — never spoke —
Bequeathing — rather — to their Work —
That when their conscious fingers cease —
Some seek in Art — the Art of Peace —

Vasco Gato – Repara nos velhos

Repara nos velhos.
Dementes, doridos, restos de casas.
Vivem agora a lepra
de todos nós.
Não lhes chegamos.
Tresandam.
Esquecem.
Apoderam-se do nada.
E nós, capitosos,
brindamos com o vinho
que também eles
sorveram,
desdenhando a morte
que, amarga como
a nossa indiferença,
haveremos
de provar.

W. B. Yeats – As quatro idades do homem

Com seu corpo principiou uma rinha
O corpo venceu; ereto ele caminha.

Ele lutou então com o coração;
Sua inocência e sua paz já se vão.

Ele combateu então usando a mente;
Ficou pra trás o coração insolente.

Agora suas guerras são com Jeová;
Ao soar a meia-noite Ele vencerá

Trad.: Nelson Santander

The Four Ages of Man

He with body waged a fight,
But body won; it walks upright.

Then he struggled with the heart;
Innocence and peace depart.

Then he struggled with the mind;
His proud heart he left behind.

Now his wars on God begin;
At stroke of midnight God shall win.